A chita agora é chique!

ze-testinha-xilo

Quem vê cara não vê coração.

Quem diria que aquele “tecidozim chinfrim”, com cara de festa do interior e brincadeira de criança, essa tal de chita, possuísse ancestrais ilustres? Pois é, a Chita surgiu na Índia medieval e conquistou os europeus. Num domínio invertido à colonização. Seu nome atravessou idiomas, assim como o tecido transpôs os mares, povos e culturas “para virar vestido de quadrilha junina no nordeste”. “De tempos em tempos, ganha espaços em passarelas, galerias de arte, vitrines e palcos, quando estilistas, artistas plásticos, designers e outros criadores redescobrem estas estampas e as incorporam a suas produções”.

Quando as primeiras quadrilhas eram dançadas nos salões franceses

a chita a muito tempo já fazia sucesso na Índia. Cinco mil anos antes de cristo é o período aproximado. Os indianos começaram a estampar em tecidos de algodão. Usavam uma técnica aprendida, possivelmente, com os chineses. Estes já imprimiam na seda, em papel de arroz e outros tecidos, para usos diversos. Para isso, usavam uma espécie de carimbo: com tipos feitos de madeira, parentes de nossas atuais xilogravuras. Os indianos depois passaram a fazê-los de metal. Esses tipos metálicos são os “pais” dos clichês usados, até hoje, nas tipográficas. A palavra Chita é derivada de chitra. Vem do sânscrito. A língua sagrada dos Brâmanes. Antiga casta religiosa da Índia.

Em hindi, língua derivado desta, pronuncia-se chint. Chitra ou Chint, quer dizer “pinta”, “mancha”, ou “matizado”.

Incrível como a chita se mantém viva até hoje em nossa região,

e o mais impressionante ainda, foi a sua saga até se tornar o tecido símbolo no nordeste do Brasil: A pouco mais de 500 anos, Pedro Alvarez Cabral veio dá com sua frota em águas brasileiras. Os portugueses procuravam um caminho alternativo para as Índias. Além de várias especiarias e outras riquezas, os patrícios estavam de olho na chita. Esse tecido era conhecido na Europa desde o século IV a.C. E os indianos, aquelas alturas, detinham um conhecimento ainda não dominado pelos europeus: o uso do mordete, uma substância agregada ao tingimento com a função específica de manter a durabilidade da cor. Por isso, os tecidos indianos resistiam mais do que os europeus a lavagens e exposições ao sol. Eis a razão de terem sidos tão cobiçados naquele tempo. Eis a razão também, para justificar o esforço sobre humano dos Portugueses, para encontrar o caminho para as Índias.

Os Portugueses, aparentemente tinham dado com os “burros n’água”.

Não encontraram o caminho das Índias, mas aportaram numa região onde no futuro esse tecido viria a se tornar uma espécie de ícone: o Nordeste Brasileiro. No entanto, a tecelagem só vai chegar ao Brasil, em 1530 na Bahia e Pernambuco. Mas só no século XVIII, precisamente no final deste, nascia em Minas Gerais a avó da chita brasileira. Isso contra a vontade do império português. Que via na produção da chita mineira uma ameaça a sua economia. Isso porque o tecido daqui passou a concorrer diretamente com de além-mar.

Ainda hoje no Brasil, usamos os motivos florais,

como os estampados na Índia naquele tempo. Essa característica é fruto da cultura daquele país, dominado pelos preceitos de duas religiões: hinduísmo e o islamismo. Esta última proíbe representações figurativas; daí a predominância de motivos florais, galhos, folhagens, arabescos e desenhos geométricos, como o madras (Listas cruzadas, formando xadrez, típicos da região de Madras). Eventualmente havia também figuras de animais, especialmente aves. Aqui chamamos chitinha ao tecido estampado com flores miudinhas. Ficaram conhecidos também por Mamãe Dolores, devido a uma personagem da novela Direito de Nascer, da TV Tupi. Chamamos de chita os estampados com flores de tamanho médio. Já o chitão que anda em alta sob as luzes dos fleches nesta entrada de milênio – se caracteriza pelas estampas florais bem grandes, em cores vivas, com traços de grafite delineando contornos, e que cobrem toda a extensão do tecido engomado.

O chitão ganhou este nome nos anos 50

e estas características na década seguinte.As próprias festas juninas, em algumas regiões, ganharam o nome do tecido. Vamos ter, então, a festa do chitão. Como vimos, estamos ligados umbilicalmente a esse tecido. A sua história tem tudo a ver com a gente. Explica-se assim o nosso carinho, o nosso apego a este tecido tão ilustre. Afinal ele entrou definitivamente na nossa alma. Habita o âmago do nosso povo. Portanto, não temos como pensar quadrilha sem pensar nele. Os dois estão casados com comunhão de bens e tudo. É chamego que não tem fim. Os originais estão no Livro Que Chita Bacana, publicado em 2005 pela Editora A Casa-Museu do Objeto Brasileiro. O texto original foi escrito pela Jornalista Maria Emilia Kubrusly e desviado por Ronaldo Rogério para o site zetestinha.com.br

You may also like

Leave a comment