A festa: espaço de encontro cerimonial de uma cultura ou sociedade

Munford e Fernandes 2001

As festas são fenômenos primordiais e indissociáveis da civilização, porque nelas os homens sempre alcançam os mais altos níveis de sociabilidade (Munford; Fernandes 2001). As festas desempenham um papel importante na relação entre o homem e o meio, pois estas manifestações refletem o modo como grupos sociais pensam, percebem e concebem seu ambiente (Bezerra 2008).

O Nordeste do Brasil

Marcado por sucessivas chegadas de colonizadores de diversas nacionalidades, o Brasil é um país que incorporou culturas de diferentes origens miscigenando-as com tradições típicas locais. O povo do nordeste do Brasil é caracterizado por absorver e transformar manifestações culturais de diversas origens do mundo e, ao incorporar em sua legítima brasilidade, recria e transmite a arte e cultura brasileira com muita alegria e brilhantismo.

A Festa Junina no Brasil: Festa de São João, Festa de Santo Antônio, Festa de São Pedro.

A festa junina no Brasil esbanja a sua expressão de festa laica e popular, mesmo apresentando origem europeia e influência da Igreja Católica. A festa de São João é fruto do hibridismo cultural, ilustra e expressa a identidade cultural nordestina.

No Brasil, o ciclo junino é iniciado na véspera do dia de santo Antônio (12 de junho) e se estende até o dia 29 do mesmo mês (dia de são Pedro), e são João é festejado nos dias 23 e 24. A “festa junina” pode ser entendida como o conjunto de manifestações festivas associadas aos santos católicos Antônio, João e Pedro. Como outras festas católicas, a festa junina também foi trazida ao Brasil ainda no século XVI pelos padres jesuítas como frei Fernão Cardim (1584) e sua aceitação foi imediata pelo conteúdo estético dos fogos e fogueiras.
A comemoração de São João no Brasil é uma festa do lar, da casa, da família, um momento de reunir a família e os amigos mais próximos: nesse aspecto ela possui uma função sexual bem definida (Lima 1961:18). Uma festa coletiva na qual uma comunidade estreita sua identidade através de símbolos e práticas que reafirmam este
pertencimento. A dimensão e a extensão da rede social é o que garante o sucesso da festa e essa festa é celebrada com abundância de alimentos, músicas, danças, bebidas e uma tendência sexual marcada nas comemorações populares (C. Cascudo 1988:404-6). A festa se processa em diferentes níveis culturais igualmente relevantes, como a música, a decoração, a culinária, as práticas religiosas, a sociabilidade e a dança.
De forma geral, a festa é caracterizada pela origem rural e seu habitante, associados aos ciclos de colheita e ao calendário religioso. Destaca-se então o personagem principal da festa: O Caipira, ou homem do campo, que reproduz todas as características do homem nordestino, ingênuo, leal, ele não se desprende de suas raízes e além de tudo é cabra-macho e quer que todos saibam disso. (Moura, 1997, p. 223). Como convém aos excessos festivos em geral, no período junino esses personagens são recuperados como uma caricatura cujos defeitos são exagerados de modo pejorativo. Assim, a paródia mais comum do migrante incomoda não somente migrantes pobres como também alguns intelectuais que denunciam essa “noção ridícula ou idealizada do homem do campo” (Lins, 1977,p. 155).
A proporção da valoração da raiz rural chega a influenciar os centros urbanos que receberam muitos migrantes das zonas rurais nordestinas. Esse aspecto grupal e identitário é o elemento que permite que essa festa seja considerada por muitos migrantes residentes nas grandes cidades como a ocasião para um retorno às suas localidades de origem a tal ponto que quando se aproxima o São João “alguns trabalhadores preferem se demitir a ter recusados alguns dias de férias” segundo Morice (1993).

A dança da festa: A quadrilha

A quadrilha é originária de uma contradança de mesmo nome trazida ao Brasil pela corte imperial portuguesa, e teve suas figuras e passos modificados ao longo do tempo e dos lugares em que foi sendo manifestada. A princípio, eram quatro ou oito casais que se organizavam em duas filas uma em frente à outra, com as quatro extremidades formando um quadrado – daí seu nome francês, quadrilles (em espanhol, cuadrilhas; em italiano, quadriglia). Nobre e cortês na origem, a quadrilha tornou-se uma dança e um espetáculo popularizado e reinventado, marcando as festas de São João de todo o país.
Colheita, fartura e comidas típicas
Como o mês de junho é a época da colheita do milho, grande parte dos doces, bolos e salgados, relacionados às festividades, são feitos deste alimento. Pamonha, cural, milho cozido, canjica, cuzcuz, pipoca, bolo de milho são apenas alguns exemplos. Também compõe o cardápio da festa arroz doce, bolo de amendoim, bolo de pinhão, bombocado, broa de fubá, cocada, pé-de-moleque, quentão, vinho quente, batata doce.
Tradições: As tradições fazem parte das comemorações.
As fogueiras podem ser o centro da quadrilha, ou se acesas diante das residências, simbolizam a responsabilidade familiar com tamanha celebração (C. Cascudo 1988:404-6).
Os balões também compõem este cenário, embora cada vez mais raros em função das leis que proíbem esta prática, em função dos riscos de incêndio que representam.
No Nordeste é muito comum a formação dos grupos festeiros. Estes grupos ficam andando e cantando pelas ruas das cidades. Vão passando pelas casas, onde os moradores deixam nas janelas e portas uma grande quantidade de comidas e bebidas para serem degustadas pelos festeiros.
Já na região Sudeste, são tradicionais as realizações de quermesses. Estas festas populares são realizadas por igrejas, colégios, sindicatos e empresas. Possuem barraquinhas com comidas típicas e jogos para animar os visitantes. A dança da quadrilha, geralmente ocorre durante toda a quermesse.
Como Santo Antônio é considerado o santo casamenteiro, são comuns as simpatias para mulheres solteiras que querem se casar. No dia 13 de junho, as igrejas católicas distribuem o “pãozinho de Santo Antônio”. Diz a tradição que o pão bento deve ser colocado junto aos outros mantimentos da casa, para que nunca ocorra a falta. As mulheres que querem se casar, diz a tradição, devem comer deste pão.

Bibliografia base:

Bezzerra, A. 2008. FESTA E CIDADE : entrelaçamentos e proximidades. Espaço e cultura, UERJ, RJ, n. 23, p. 7-18, jan./jun. de 2008 Chianca, L. 2011 Devoção e diversão_expressoes contemporâneas de festas de santos católicos. SOCIEDADE E CULTURA, V. 10, N. 1, JAN./JUN. 2007, P. 45-59

Chianca, L. 2007. Quando o campo está na cidade: migração, identidade e festa. ANTHROPOLÓGICAS, ano 11, volume 18(2):49-74 (2007).
Morigi, V.J. 2005
http://www.suapesquisa.com/musicacultura/historia_festa_junina.htm

Festa Junina London e Berlin

A Festa Junina London, que teve sua primeira edição em 2007 no Sudoeste de Londres, busca celebrar e divulgar a riqueza cultural da Festa Junina e do folclore brasileiros, misturando suas cores, sons e sabores com elementos da scena eletrônica londrina, afim de criar um caldeirão de culturas e costumes, um grande playground musical, integrando a comunidade local e os brasileiros vivendo no exterior.

Mais de dez mil pessoas passaram pelo arraial da Festa Junina London e desde 2010 pela Festa Junina Berlin. Com uma programação gratuita e abrangente, o evento conta com inúmeras apresentações de folclore e cultura brasileira como forró, frevo, quadrilha, cacuriá, capoeira, workshops, comidas, bebidas e jogos tradicionais de Festa Junina organizados por membros da comunidade brasileira em Londres e em Berlim, sempre com o apoio da comunidade local. A Festa Junina London finaliza sua programação com a festa noturna unindo artistas brasileiros e artistas locais da scena de música eletrônica.